Questão 124 do ENEM 2014 — Literatura

Vida obscura

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
ó ser humilde entre os humildes seres,
embriagado, tonto de prazeres,
o mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
a vida presa a trágicos deveres
e chegaste ao saber de altos saberes
tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
magoado, oculto e aterrador, secreto,
que o coração te apunhalou no mundo,

Mas eu que sempre te segui os passos
sei que cruz infernal prendeu-te os braços
e o teu suspiro como foi profundo!

SOUSA, C. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1961.

Com uma obra densa e expressiva no Simbolismo brasileiro, Cruz e Sousa transpôs para seu lirismo uma sensibilidade em conflito com a realidade vivenciada. No soneto, essa percepção traduz-se em

✓
Sofrimento tácito diante dos limites impostos pela discriminação.
B
Tendência latente ao vício como resposta ao isolamento social.
C
Extenuação condicionada a uma rotina de tarefas degradantes.
D
Frustração amorosa canalizada para as atividades intelectuais.
E
Vocação religiosa manifesta na aproximação com a fé cristã.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

O soneto fala de uma dor que ninguém viu: “Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro”, um sentimento “magoado, oculto”, uma “cruz infernal” carregada em silêncio. Essa percepção traduz o sofrimento tácito diante dos limites impostos pela discriminação — leitura reforçada pela condição de Cruz e Sousa, poeta negro num Brasil recém-saído da escravidão, em conflito com a realidade que o cercava.

A leitura de extenuação por uma rotina de tarefas degradantes toma “trágicos deveres” ao pé da letra; mas o centro do poema não é o cansaço físico, e sim a dor moral invisível de um “ser humilde entre os humildes”, silenciada pela sociedade.

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