Questão 135 do ENEM 2012 — Literatura
O trovador
Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras…
As primaveras do sarcasmo
intermitentemente no meu coração arlequinal…
Intermitentemente…
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo…
Cantabona! Cantabona!
Dlorom…
Sou um tupi tangendo um alaúde!
ANDRADE, M. In: MANFIO, D. Z. (Org.) Poesias completas de Mário de Andrade. Belo Horizonte: Itatiaia, 2005.
Cara ao Modernismo, a questão da identidade nacional é recorrente na prosa e na poesia de Mário de Andrade. Em O trovador, esse aspecto é
Resolução comentada
O verso final — “Sou um tupi tangendo um alaúde!” — condensa o dilema modernista da identidade nacional: o tupi (a raiz indígena, o primitivo) toca um instrumento europeu e medieval (o civilizado). A questão é problematizada na oposição tupi × alaúde, antecipando a síntese entre o nacional e o estrangeiro que o Manifesto Antropófago proporia.
Ler exaltação nesse verso, como se o eu lírico evocasse os “sentimentos dos homens das eras mais remotas” para mostrar orgulho por suas raízes indígenas, ignora a tensão do poema: o eu lírico se diz “doente”, com “coração arlequinal” intermitente — não celebra as raízes com orgulho ufanista, e sim expõe o conflito de uma identidade dividida.