Questão 102 do ENEM 2011 — Literatura
Quem é pobre, pouco se apega, é um giro-o-giro no vago dos gerais, que nem os pássaros de rios e lagoas. O senhor vê: o Zé-Zim, o melhor meeiro meu aqui, risonho e habilidoso. Pergunto: — Zé-Zim, por que é que você não cria galinhas-d’angola, como todo o mundo faz? — Quero criar nada não… — me deu resposta: — Eu gosto muito de mudar… […] Belo um dia, ele tora. Ninguém discrepa. Eu, tantas, mesmo digo. Eu dou proteção. […] Essa não faltou também à minha mãe, quando eu era menino, no sertãozinho de minha terra. […] Gente melhor do lugar eram todos dessa família Guedes, Jidião Guedes; quando saíram de lá, nos trouxeram junto, minha mãe e eu. Ficamos existindo em território baixio da Sirga, da outra banda, ali onde o de-Janeiro vai no São Francisco, o senhor sabe.
ROSA, J. G. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: José Olympio (fragmento).
Na passagem citada, Riobaldo expõe uma situação decorrente de uma desigualdade social típica das áreas rurais brasileiras marcadas pela concentração de terras e pela relação de dependência entre agregados e fazendeiros. No texto, destaca-se essa relação porque o personagem-narrador
Resolução comentada
Riobaldo, fazendeiro, conta a história do meeiro Zé-Zim e resume a lógica do sertão: "Eu dou proteção". O agregado é formalmente livre — pode ir embora quando quiser ("Belo um dia, ele tora") —, mas vive em terra alheia e depende do favor do proprietário. O texto destaca, assim, a dupla condição do sertanejo: homem livre e, ao mesmo tempo, dependente.
Apontar uma denúncia da desocupação dos moradores não se sustenta: o narrador não denuncia desocupação — ele próprio elogia Zé-Zim como "o melhor meeiro meu, risonho e habilidoso". O problema retratado é estrutural (concentração de terras), não moral.