Questão 135 do ENEM 2009 — Literatura
Confidência do Itabirano
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e
[comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e
[sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
ANDRADE, C. D. Poesia completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003.
Carlos Drummond de Andrade é um dos expoentes do movimento modernista brasileiro. Com seus poemas, penetrou fundo na alma do Brasil e trabalhou poeticamente as inquietudes e os dilemas humanos. Sua poesia é feita de uma relação tensa entre o universal e o particular, como se percebe claramente na construção do poema Confidência do Itabirano. Tendo em vista os procedimentos de construção do texto literário e as concepções artísticas modernistas, conclui-se que o poema acima
Resolução comentada
No poema, o 'eu' se define pela terra natal: o ferro de Itabira está 'nas calçadas' e 'nas almas', e a cidade lhe deixou o orgulho, a cabeça baixa e a dor ('Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!'). O texto evidencia uma tensão histórica entre o 'eu' e a sua comunidade, com imagens que mostram como a sociedade e o mundo constituem o indivíduo — o particular (Itabira) formando o universal (o sujeito e seus dilemas).
A leitura que filia o poema ao Romantismo, por tratar de individualidade, saudade da infância e amor pela terra natal com recursos retóricos pomposos, erra: embora fale de memória e terra natal, Drummond o faz com linguagem enxuta, irônica e antirretórica, típica do Modernismo — sem recursos retóricos pomposos.