Questão 48 do ENEM 2025 — Filosofia

A credulidade dos ouvintes aumenta o descaramento do narrador, e o descaramento deste conquista-lhes a credulidade. A eloquência, quando levada a seu patamar mais alto, deixa pouco lugar à razão ou à reflexão, mas, dirigindo-se inteiramente à imaginação e aos afetos, cativa os ouvintes condescendentes e subjuga-lhes o entendimento.

HUME, D. Uma investigação sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. São Paulo: Edunesp, 2003.

No contexto do século XVIII, o autor propõe uma reflexão radical acerca da arte da eloquência, restringindo-a ao

A
sistema de crenças, conforme a proposta kantiana de objetividade do conhecimento.
B
campo dos absolutos, semelhante ao entendimento medieval dos Universais.
C
domínio da lógica, consoante a compreensão aristotélica nos Analíticos.
D
paradigma da racionalidade, alinhado ao modelo cartesiano de método.
✓
âmbito da persuasão, análogo às críticas platônicas aos sofistas.
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

O trecho é de David Hume (1711-1776), empirista escocês do Iluminismo, que desconfiava de tudo o que se apoia mais na emoção do que na evidência. Aqui ele analisa a eloquência: quando levada ao extremo, ela "deixa pouco lugar à razão ou à reflexão", pois se dirige "à imaginação e aos afetos" e "subjuga o entendimento" dos ouvintes.

Perceba que, para Hume, o discurso eloquente não serve para descobrir a verdade, e sim para convencer pela emoção. Esse é o campo da persuasão. A crítica lembra a que Platão fazia aos sofistas, mestres da retórica que, segundo ele, ensinavam a vencer debates e a agradar à plateia sem compromisso com o conhecimento verdadeiro. Por isso a eloquência fica restrita ao âmbito da persuasão, em analogia à crítica platônica.

Os distratores usam nomes famosos, mas erram o conteúdo. Hume não propõe que a eloquência pertença ao domínio da lógica aristotélica nem ao paradigma racional cartesiano, pois o texto diz justamente que ela se afasta da razão. A referência ao sistema de crenças kantiano é anacrônica e inverte a relação, já que Kant responde a Hume e busca objetividade, e o trecho não trata disso. Já os Universais medievais são um debate sobre a natureza dos conceitos, sem relação com retórica.

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