Questão 32 do ENEM 2025 — Literatura
Muitos pensam que narrativa curta é sinônimo de conto, perdendo de vista gêneros que, por tradição ruim, continuam à margem da nobreza. Acontece que o conto tem uma densidade específica, centrando-se na exemplaridade de um instante da condição humana, sem que essa exemplaridade se refira à valoração moral, já que uma grande mazela pode muito bem exemplificar uma das nossas faces. A crônica não tem essa característica. Conservou a marca do registro circunstancial feito por narrador-repórter que relata um fato para muitos leitores que formam um público determinado. Mas que público é esse? Sendo a crônica uma soma de jornalismo e literatura (daí a imagem do narrador-repórter), dirige-se a uma classe que tem preferência pelo jornal em que ela é publicada, o que significa uma espécie de censura ou, pelo menos, de limitação: a ideologia do veículo corresponde ao interesse dos seus consumidores, direcionados pelos proprietários dos periódicos e/ou pelos editores- -chefes da redação. Ocorre ainda o limite de espaço, uma vez que a página comporta várias matérias, o que impõe a cada uma delas um número restrito de laudas, obrigando o redator a explorar, da maneira mais econômica possível, o pequeno espaço de que dispõe. É dessa economia que nasce sua riqueza estrutural.
SÁ, J. A crônica. São Paulo: Ática, 1987 (adaptado).
De acordo com esse texto, o aspecto tecnológico que influencia a composição do gênero crônica advém da
Resolução comentada
O texto é um trecho de ensaio de Jorge de Sá sobre o gênero crônica. O autor a compara ao conto: este tem “densidade específica” e se centra na “exemplaridade de um instante da condição humana”, enquanto a crônica tem natureza de “registro circunstancial feito por narrador-repórter”, a meio caminho entre jornalismo e literatura.
A pergunta pede o aspecto “tecnológico” que influencia a composição da crônica, e é preciso entender o termo como o suporte material em que o texto circula. O trecho decisivo é: “Ocorre ainda o limite de espaço, uma vez que a página comporta várias matérias, o que impõe a cada uma delas um número restrito de laudas”. A página de jornal, como suporte físico, impõe um tamanho curto, e o cronista precisa “explorar, da maneira mais econômica possível, o pequeno espaço de que dispõe”. Para o autor, “é dessa economia que nasce sua riqueza estrutural”.
Portanto, o fator que molda a composição vem da restrição espacial do suporte, o jornal impresso, e determina a brevidade e a concisão da crônica.
Os distratores tratam de outros aspectos do texto. A conexão ideológica, a ideologia do veículo, é uma limitação de conteúdo, não tecnológica. A ênfase no público leitor também é uma característica que o autor discute, mas ligada à audiência. A densidade temática é atribuída ao conto, e não à crônica. E a apresentação de uma moral é negada pelo texto, que diz que a exemplaridade do conto não se refere à valoração moral.