Questão 44 do ENEM 2024 — Literatura
XIX
Talvez não se lembre de um Jacinto, cujo nome, então desconhecido para mim, ouvira uma vez da boca de Lúcia. Era um homem de 45 anos; feição comum e espírito medíocre. Encontrava-o agora todos os dias em casa de Lúcia; e desde a primeira vez antipatizara com a sua enjoativa figura. — Quem é este senhor? — perguntei a Lúcia. Ela perturbou-se. — É um sujeito que costuma tratar dos meus negócios. — Que importantes negócios são os teus que eu não me possa incumbir deles? — Compras... Não tenho outros. Para que incomodá-lo com isso?
— Também sou ciumento: não desejo que ocupes outra pessoa além de mim. — Esse homem é quase um criado. A palavra produziu o seu efeito; desde que o Jacinto desceu ao mister de homem assalariado, não fiz mais reparo na sua assiduidade. Quase sempre o encontrava na escada interior, descendo quando eu subia; dava-lhe tanta atenção como ao carroceiro que enchia as talhas d’água, ou ao cozinheiro que saía a compras.
ALENCAR, J. Lucíola. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 25 ago. 2017.
Ao relatar seu passado com Lúcia, cortesã de modos refinados, o narrador revela uma visão de mundo alinhada ao Romantismo, representada, nesse fragmento, pela
Resolução comentada
A questão pede que você relacione um trecho de Lucíola, de José de Alencar, a uma característica do Romantismo, considerando o narrador que relata o seu passado com Lúcia, uma cortesã de modos refinados.
Observe a construção do texto: o narrador começa com “Talvez não se lembre de um Jacinto...”, falando a um interlocutor e recordando fatos vividos. Ele relata o ciúme (“Também sou ciumento: não desejo que ocupes outra pessoa além de mim”), a perturbação de Lúcia e a antipatia pelo “enjoativa figura” de Jacinto. Tudo é narrado em primeira pessoa, filtrado pelas emoções e pela subjetividade de quem viveu a história. O Romantismo valoriza o sentimento, o subjetivismo e o ponto de vista individual do eu.
Note também que o fragmento não se detém em descrição da moda, em estudo clínico do comportamento feminino, nem em idealização do passado: o foco está na relação amorosa vista pelo olhar emocional do narrador, que conta o que sentiu.
A resposta é a emotividade condicionada ao relato em primeira pessoa. A análise psicológica do comportamento feminino tem a perspectiva de quem observa de fora, e o narrador apenas reage a Lúcia, sem investigar sua mente. A valorização do estilo e da moda não está no trecho. A fuga do presente para um tempo idealizado é traço romântico, mas aqui o narrador relata o passado com ciúme e desconfiança, sem idealizá-lo ou fugir dele. A relevância do prestígio social para a burguesia é tema mais próximo do Realismo, e aqui o prestígio aparece apenas na menção ao “criado”, sem ser o eixo do trecho.