Questão 86 do ENEM 2024 — Filosofia

Eu sentia falta do futuro. É claro que eu sabia, muito mesmo antes da recorrência dele, que nunca envelheceria. Era muito provável que eu nunca mais fosse ver o oceano de uma altura de trinta mil pés de novo, uma distância tão grande que não dá nem para distinguir as ondas, nem nenhum barco, de um jeito que faz o oceano parecer um enorme e infinito monólito. Eu poderia imaginá-lo. Eu poderia me lembrar dele. Mas não poderia vê-lo de novo, e me ocorreu que a ambição voraz dos seres humanos nunca é saciada quando os sonhos são realizados, porque há sempre a sensação de que tudo poderia ter sido feito melhor e ser feito outra vez.

O texto apresenta uma reflexão da personagem acerca de um problema característico da filosofia contemporânea, que trata da(s)

A
implicações éticas.
✓
finitude humana.
C
limitações da linguagem.
D
pressuposição existencial.
E
objetividade do conhecimento.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

O trecho é literário, em primeira pessoa, e traz uma personagem que lamenta a perda do futuro: sabe que nunca envelhecerá, que não verá mais o oceano do alto de um avião e que só poderá imaginá-lo ou recordá-lo. A reflexão final é filosófica: a ambição humana "nunca é saciada" porque sempre parece que tudo poderia ter sido feito melhor e feito outra vez.

Perceba os elementos que se repetem: "nunca envelheceria", "nunca mais fosse ver", "não poderia vê-lo de novo". Eles remetem à consciência do limite, ao tempo que se esgota e às possibilidades que se fecham. Esse é o tema da finitude humana, central na filosofia contemporânea, em especial no existencialismo e em Heidegger: o ser humano existe diante da própria morte, do tempo e da impossibilidade de repetir a experiência, e isso gera angústia e desejo insaciável.

Os distratores nomeiam temas filosóficos reais, mas que o trecho não trabalha. As implicações éticas supõem uma discussão sobre o certo e o errado, ausente aqui. As limitações da linguagem apareceriam se a personagem tivesse dificuldade de expressar a experiência, o que não ocorre: ela descreve o oceano. A pressuposição existencial e a objetividade do conhecimento também não correspondem ao foco, que é emocional e temporal, não epistemológico: a personagem não discute como conhecemos algo, e sim o que perdeu.

Quer treinar Filosofia para o ENEM de verdade?
Crie sua conta grátis: 10 questões por dia com correção na hora, simulados no formato da prova e estatísticas do seu desempenho.
Começar grátis