Questão 28 do ENEM 2024 — Literatura
Esaú e Jacó
Machado de Assis Capítulo 48/ Terpsícore
Ao contrário do que ficou dito atrás, Flora não se aborreceu na ilha. Conjeturei mal, emendo-me a tempo. Podia aborrecer-se pelas razões que lá ficam, e ainda outras que poupei ao leitor apressado; mas, em verdade, passou bem a noite. A novidade da festa, a vizinhança do mar, os navios perdidos na sombra, a cidade defronte com os seus lampiões de gás, embaixo e em cima, na praia e nos outeiros, eis aí aspectos novos que a encantaram durante aquelas horas rápidas.
Não lhe faltavam pares, nem conversação, nem alegria alheia e própria. Toda ela compartia da felicidade dos outros. Via, ouvia, sorria, esquecia-se do resto para se meter consigo. Também invejava a princesa imperial, que viria a ser imperatriz um dia, com o absoluto poder de despedir ministros e damas, visitas e requerentes, e ficar só, no mais recôndito do paço, fartando-se de contemplação ou de música. Era assim que Flora definia o ofício de governar. Tais ideias passavam e tornavam. De uma vez alguém lhe disse, como para lhe dar força: “Toda alma livre é imperatriz!”.
Convidada para o último baile do Império, na Ilha Fiscal, localizada no Rio de Janeiro, Flora devaneia sobre aspectos daquele contexto, no qual o narrador ironiza a
Resolução comentada
O trecho é de Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e se passa no baile da Ilha Fiscal, em 1889, o último grande evento do Império, realizado poucos dias antes da proclamação da República. Flora é a convidada que devaneia sobre a festa, e o narrador, como é típico de Machado, comenta a cena com ironia.
Observe o que ocupa a atenção da personagem: a "novidade da festa", o mar, os navios, os lampiões da cidade, os pares e a conversa. Ela "via, ouvia, sorria, esquecia-se do resto" e até inveja o poder da princesa imperial, que poderia "despedir ministros e damas, visitas e requerentes" e ficar só, contemplando e ouvindo música. Ninguém ali parece perceber que o regime está prestes a ruir. A ironia machadiana está na distância entre o clima de encantamento e despreocupação e o fato histórico que o leitor conhece: a monarquia estava no fim, e a elite dançava.
Daí a alternativa que fala da alienação da elite em relação ao fim da monarquia ser a que expressa o alvo da ironia.
Os distratores têm pouco ou nenhum apoio. A promessa de esperança com o futuro regime não existe, porque o regime republicano nem é mencionado. A contemplação distanciada da capital é só um detalhe da paisagem, e não o alvo da crítica. A animosidade entre povo e nobreza não aparece; o clima é de festa e harmonia. Por fim, a fantasia de amor e casamento não está no trecho: os devaneios de Flora são sobre liberdade e poder ("toda alma livre é imperatriz").