Questão 15 do ENEM 2024 — Literatura

Senhora

José de Alencar
—
Eu lhe juro, Aurélia. Estes lábios nunca tocaram a face de outra mulher, que não fosse minha mãe. Meu primeiro beijo de amor, guardei-o para minha esposa, para ti...
[...]
—
Ou de outra mais rica! — disse ela, retraindo-se para fugir ao beijo do marido, e afastando-o com a ponta dos dedos.
A voz da moça tomara o timbre cristalino, eco da rispidez e aspereza do sentimento que lhe sublevava o seio, e que parecia ringir-lhe nos lábios como aço.
—Aurélia! Que significa isto?
—Representamos uma comédia, na qual ambos desempenhamos o nosso papel com perícia consumada. Podemos ter este orgulho, que os melhores atores não nos excederiam. Mas é tempo de pôr termo a esta cruel mistificação, com que nos estamos escarnecendo mutuamente, senhor. Entremos na realidade por mais triste que ela seja; e resigne-se cada um ao que é, eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido.
—Vendido! — exclamou Seixas ferido dentro d’alma.
—Vendido, sim: não tem outro nome. Sou rica, muito rica; sou milionária; precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas. O senhor estava no mercado; comprei-o. Custou-me cem contos de réis, foi barato; não se fez valer. Eu daria o dobro, o triplo, toda a minha riqueza por este momento.

Ao tematizar o casamento, esse fragmento reproduz uma concepção de literatura romântica evidenciada na

A
defesa da igualdade de gêneros.
B
importância atribuída à castidade.
C
indignação com as injustiças sociais.
✓
interferência da riqueza sobre o amor.
E
valorização das relações interpessoais.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

O fragmento é de “Senhora”, romance de José de Alencar, e reproduz o diálogo entre Aurélia e o marido, Seixas, na noite de núpcias. A cena é a de um acerto de contas: ela, rica, revela que comprou o marido, e ele, pobre, havia aceitado o casamento por dinheiro. A questão pede a concepção de literatura romântica que o episódio evidencia ao tematizar o casamento.

O foco está na inversão dos papéis tradicionais. Aurélia diz: “Sou rica, muito rica; sou milionária; precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas. O senhor estava no mercado; comprei-o. Custou-me cem contos de réis.” Antes disso, ao ouvir Seixas jurar amor, ela rebate: “Ou de outra mais rica!”. O vocabulário de compra e venda (“mercado”, “vendido”, “custou”, “barato”) mostra o casamento como transação, e o romance, apesar de romântico, critica como o dinheiro contamina o sentimento. Essa é a interferência da riqueza sobre o amor.

A opção que fala em defesa da igualdade de gêneros não se sustenta: Aurélia reproduz a lógica de compra, sem propor relação igualitária. A que fala em importância da castidade se prende à fala de Seixas sobre o primeiro beijo, mas é só um argumento do personagem, desmentido pela cena. A que trata de indignação com as injustiças sociais é mais ampla do que o fragmento, que se limita à relação entre os dois e a seus interesses. A que fala em valorização das relações interpessoais vai na direção contrária: o diálogo mostra que a relação foi corrompida por interesses materiais, de modo que as pessoas aparecem como mercadoria.

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