Questão 11 do ENEM 2024 — Literatura

Feijoada à minha moda

Vinicius de Moraes (fragmento)
Amiga Helena Sangirardi
Conforme um dia prometi
Onde, confesso que esqueci
E embora — perdoe — tão tarde
(Melhor do que nunca!) este poeta
Segundo manda a boa ética
Envia-lhe a receita (poética)
De sua feijoada completa.
Em atenção ao adiantado
Da hora em que abrimos o olho
O feijão deve, já catado
Nos esperar, feliz, de molho.
Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão
[...]
De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)
[...]
Enquanto ao lado, em fogo brando
Desmilinguindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso
Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.
[...]Dever cumprido. Nunca é vã
A palavra de um poeta... — jamais!
Abraça-a, em Brillat-Savarin,
O seu Vinicius de Moraes.

Apesar de haver marcas formais de carta e receita, a característica que define esse texto como poema é o(a)

A
nomeação de um interlocutor.
B
manifestação de intimidade.
C
descrição de procedimentos.
✓
utilização de uma linguagem expressiva.
E
apresentação de ingredientes culinários.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

O texto é um fragmento de “Feijoada à minha moda”, de Vinicius de Moraes. Ele reúne marcas de dois gêneros: da carta (vocativo “Amiga Helena Sangirardi”, despedida assinada “o seu Vinicius de Moraes”, tom de promessa cumprida) e da receita (feijão de molho, cozimento em “umas quatro horas, fogo médio”, carne-seca, paio, toucinho, couve). A questão pergunta o que, apesar disso, faz do texto um poema.

Note que o poeta não se limita a listar passos e ingredientes. Ele organiza o conteúdo em versos rimados e metrificados, e o trabalho com as palavras está em primeiro plano: “Desmilinguindo-se de gozo” (o torresminho), “fogo alegre e presto”, “nédio toucinho”, a ironia de “bocejando o nosso tédio” e o fecho “Nunca é vã a palavra de um poeta”. O resultado é uma linguagem que seduz pelo som, pela imagem e pelo humor, e não apenas informa. É a utilização de uma linguagem expressiva que caracteriza o texto como poema.

A opção que fala em nomear um interlocutor e a que fala em manifestar intimidade descrevem traços da carta, que o enunciado pede para pôr de lado, já que a questão diz “apesar de haver marcas formais de carta”. As opções que mencionam descrição de procedimentos e apresentação de ingredientes culinários correspondem às marcas formais da receita, que também são justamente as que o enunciado dispensa. Só a ideia de linguagem expressiva dá ao texto a identidade poética, o que o distingue de uma carta ou receita comuns.

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