Questão 84 do ENEM 2023 — Sociologia

Ana Maria [entrevistadora]: Vida de empreguete é tão dura assim como vocês retratam no clipe? Penha [empregada]: Olha, Ana, difícil mesmo é aturar cara de patroa ignorante que não sabe pedir as coisas com educação. Sonia [patroa]: Ana, eu acho que nós estamos vivendo uma inversão total de valores, entende? Não somos nós que precisamos das empregadas. Elas é que precisam do emprego, precisam do dinheiro que nós pagamos. Cida [empregada]: Até parece, dona Sonia, a senhora precisa de mim até pra pegar água! Sonia: Eu sou de um tempo em que os serviçais sabiam o seu lugar! Cida: Eu esqueci que a senhora pegou a época da escravidão! Ana Maria: Gente, eu só quis promover aqui uma confraternização... Chayenne [patroa]: Ana, pare tudo, porque agora eu quero falar! Eu sou uma patroa que dou de tudo: eu dou comida, eu dou quartinho, eu dou sabão de coco pra elas se lavarem, eu dou papel higiênico, eu dou copo, prato, talher, tudo separado, sem descontar o salário! Penha: Agora, pra tirar férias, como manda a lei, é um sacrifício! E ela viaja e quer que eu fique carregando a mala dela. Eu não sou carregadora de mala, não!

MACEDO, R. M. Espelho mágico: produção e recepção de imagens de empregadas domésticas em uma telenovela brasileira. Cadernos Pagu, n. 48, 2016.

O diálogo, extraído de uma telenovela brasileira exibida em 2012, traduz o pensamento de uma sociedade caracterizada pela presença de

A
símbolos da expansão de bens culturais.
B
avanços do número de contratos formais.
✓
elementos do sistema do cativeiro colonial.
D
progressos da venda de produtos midiáticos.
E
signos da modernização de relações laborais.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

A questão pede que você leia um diálogo de telenovela de 2012 como fonte histórica e identifique o que ele revela sobre a sociedade brasileira: a permanência de elementos do sistema escravista colonial nas relações de trabalho doméstico.

Observe as falas das patroas. Sonia diz ser "de um tempo em que os serviçais sabiam o seu lugar", e as empregadas respondem ironizando que ela "pegou a época da escravidão". Chayenne se orgulha de "dar" comida, quartinho, sabão e papel higiênico, "tudo separado", como se fossem favores e não direitos. Há ainda a separação de talheres e pratos, a naturalização do quartinho e a resistência em conceder férias, "como manda a lei", e em tratar a empregada com educação.

Todos esses traços lembram a lógica senhorial: hierarquia rígida entre quem manda e quem serve, trabalho tratado como obrigação e não como contrato, espaços e utensílios separados e dependência pessoal em vez de direitos trabalhistas. O texto, porém, mostra a cena sendo criticada, pois as empregadas contestam esse comportamento. Mesmo assim, o diálogo revela uma mentalidade que sobreviveu ao fim formal da escravidão.

A resposta é elementos do sistema do cativeiro colonial. As opções que falam em expansão de bens culturais e em venda de produtos midiáticos confundem o meio (a telenovela) com o assunto do diálogo. As que falam em avanço de contratos formais e em modernização das relações laborais vão no sentido oposto: o que as patroas defendem é justamente a resistência a direitos como as férias, e não a modernização.

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