Questão 8 do ENEM 2023 — Literatura
A verdade é que não me preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados cá na terra, e admito o diabo, futuro carrasco do ladrão que me furtou uma vaca de raça. Tenho, portanto, um pouco de religião, embora julgue que, em parte, ela é dispensável a um homem. Mas mulher sem religião é horrível.
Comunista, materialista. Bonito casamento! Amizade com o Padilha, aquele imbecil. “Palestras amenas e variadas”. Que haveria nas palestras? Reformas sociais, ou coisa pior. Sei lá! Mulher sem religião é capaz de tudo.
RAMOS, G. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1981.
Uma das características da prosa de Graciliano Ramos é ser bastante direta e enxuta. No romance São Bernardo, o autor faz a análise psicológica de personagens e expõe desigualdades sociais com base na relação entre patrão e empregado, além da relação conjugal. Nesse sentido, o texto revela um(a)
Resolução comentada
A questão pede que você identifique o que o trecho de “São Bernardo” revela sobre o narrador-personagem, relacionando a análise psicológica à sua visão de religião e de mulher.
O narrador, Paulo Honório, admite que “não me preocupo muito com o outro mundo”, mas logo acrescenta que aceita “Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores” e “o diabo, futuro carrasco do ladrão que me furtou uma vaca de raça”. Ou seja, ele usa a religião de modo prático e interessado, sem fé profunda. Mesmo assim, sustenta: “julgo que, em parte, ela é dispensável a um homem. Mas mulher sem religião é horrível” e “é capaz de tudo”.
Há uma ambiguidade evidente: ele diz ter “um pouco de religião”, considera-a dispensável para o homem, mas obrigatória para a mulher. A convicção sobre o papel feminino revela o autoritarismo do patrão e marido, que enxerga a religião como forma de controle.
A resposta é o retrato ambíguo da religiosidade do personagem e da sua convicção sobre a relação que a mulher deve ter com a religião. As outras opções erram porque o texto não defende o livre-arbítrio feminino (ele a rejeita), não é “conhecedor profundo” de nada, mas é a voz do próprio Paulo Honório, e a linguagem direta não serve para associar espaço interno e externo. A que fala em defesa da divisão dos bens e do trabalho coletivo contraria o patrão, que trata “comunista, materialista” como insulto.