Questão 70 do ENEM 2023 — História

Antônio Vieira enfrentou a Inquisição portuguesa, de olho no apoio que os judeus portugueses podiam oferecer à causa da Restauração. Mas a Companhia de Jesus e a Inquisição portuguesa nunca foram muito amigas. Basta lembrar a estratégia missionária dos jesuítas, calcada na adaptação do catolicismo à cultura dos povos missionados, enquanto a Inquisição era obcecada pelo ideal de pureza da fé, sem mistura de nenhum tipo.

VAINFAS, R. In: FIGUEIREDO, L. (Org.). História do Brasil para ocupados. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

No contexto da dominação ibérica da América, um exemplo do dissenso referido no texto girou em torno da

A
criação de polos de fomento do comércio ultramarino.
B
condenação da utilização de escravos do continente africano.
✓
ressignificação dos panteões indígenas pela propaganda cristã.
D
fundação de núcleos de catequese nas regiões agroprodutoras.
E
incorporação de indivíduos nativos pelas forças militares coloniais.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

A questão pede um exemplo, na América ibérica, do conflito entre jesuítas e Inquisição descrito no texto.

Vainfas explica que a Companhia de Jesus e a Inquisição nunca foram "muito amigas". Os jesuítas adaptavam o catolicismo à cultura dos povos missionados. A Inquisição, ao contrário, buscava uma fé pura, "sem mistura de nenhum tipo". O dissenso, portanto, está entre adaptar (misturar) e preservar a pureza.

Na América, essa adaptação aparece quando os missionários reinterpretavam elementos da religiosidade indígena, como os seres e divindades de cada povo, dentro do cristianismo. Esse sincretismo era visto com desconfiança por quem exigia ortodoxia. O caso do nheengatu, língua geral criada pelos jesuítas a partir do tupi, mostra a mesma lógica.

A resposta é a ressignificação dos panteões indígenas (o conjunto de divindades e seres sagrados nativos). As demais opções não envolvem o choque entre mistura e pureza. A criação de polos de fomento do comércio ultramarino é um tema econômico. A condenação do uso de escravos do continente africano não é matéria de disputa doutrinária entre as duas instituições. A fundação de núcleos de catequese e a incorporação de nativos às forças militares mostram ações da Igreja e da Coroa, não uma divergência de método entre elas.

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