Questão 66 do ENEM 2023 — Filosofia
Suponha-se que seja trazida de súbito a este mundo uma pessoa dotada das mais poderosas faculdades da razão e reflexão. É verdade que ela observaria imediatamente um acontecimento seguindo-se a outro, mas não conseguiria descobrir nada além disso. Ela não seria, no início, capaz de apreender, por meio de nenhum raciocínio, a ideia de causa e efeito.
HUME, D. Investigação sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. São Paulo: Unesp, 2003.
Segundo Hume, nossa capacidade de estabelecer relações como aquelas mencionadas no texto resulta do(a)
Resolução comentada
A questão pede a origem, segundo Hume, da nossa ideia de causa e efeito. É o problema central do empirismo: de onde vem a noção de que um evento produz outro?
No trecho, Hume imagina uma pessoa dotada de razão poderosa, mas sem experiência anterior. Ela veria um acontecimento seguir o outro, sem conseguir apreender, só pelo raciocínio, a ideia de causa e efeito. Para Hume, a razão sozinha não encontra nenhuma "conexão necessária" entre os fatos. Só enxergamos sucessão, não causação.
Se a razão pura não explica a ideia, ela vem da experiência. Ao ver o evento A seguido do evento B muitas vezes, a mente cria uma expectativa: passa a esperar B quando vê A. Essa tendência é o que Hume chama de hábito (ou costume), formado pela repetição de uma mesma operação ou sequência.
A resposta é, portanto, o hábito desenvolvido pela repetição de uma operação. As demais explicações falham. A intuição formada pela atividade mental pura e a reminiscência de vidas passadas são teses racionalistas ou platônicas, e o texto afirma justamente que o raciocínio sozinho não chega à ideia. O testemunho de terceiros não explica uma ideia que cada pessoa forma por si ao observar os fatos. E a ideia de uma representação construída por juízos universais pressupõe leis gerais que, para Hume, só existiriam depois do hábito, nunca antes.