Questão 35 do ENEM 2023 — Literatura
O corrupião
Escaveirado corrupião idiota, Olha a atmosfera livre, o amplo éter belo, E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo, Que do fundo do chão todo o ano brota!
Mas a ânsia de alto voar, de à antiga rota Voar, não tens mais! E pois, preto e amarelo, Pões-te a assobiar, bruto, sem cerebelo A gargalhada da última derrota!
A gaiola aboliu tua vontade. Tu nunca mais verás a liberdade!... Ah! Tu somente ainda és igual a mim.
Continua a comer teu milho alpiste. Foi este mundo que me fez tão triste, Foi a gaiola que te pôs assim!
ANJOS, A. Eu e outras poesias. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 30 out. 2021.
Nesse soneto, a imagem e o comportamento do pássaro são utilizados pelo eu lírico para metaforizar o
Resolução comentada
A questão pede o sentido metafórico do pássaro enjaulado no soneto de Augusto dos Anjos.
O corrupião está preso: “A gaiola aboliu tua vontade. / Tu nunca mais verás a liberdade!”. Ele perdeu a “ânsia de alto voar”, assobia “a gargalhada da última derrota” e se limita a “comer teu milho alpiste”. Não reage nem luta: aceita a condição. O eu lírico se identifica com ele (“Ah! Tu somente ainda és igual a mim”) e diz que “este mundo [...] me fez tão triste”, da mesma forma que “a gaiola” fez o pássaro assim.
A ave simboliza, portanto, quem se conformou com as privações impostas, alguém que desistiu de lutar e se adaptou à rotina de limitação. A palavra-chave é a derrota já aceita, e não o impulso de enfrentamento.
A resposta é o gesto de resignação ante as privações diárias. A opção sobre revolta perante injustiças vai contra o texto, pois o pássaro já não tem “a ânsia de alto voar”; a solidão não é o tema central; o contraste entre natureza e civilização aparece só no início (“atmosfera livre”), mas não é o que o pássaro metaforiza; e o declínio ligado ao envelhecimento não aparece, já que a causa do abatimento é o cativeiro.