Questão 27 do ENEM 2023 — Língua Portuguesa
Uma marca de eletrodomésticos que retornou para o mercado brasileiro posicionou painéis em pontos estratégicos da cidade de São Paulo com frases que trazem histórias reais de mulheres que desafiaram padrões e estereótipos, com a premissa de trazer uma reflexão sobre o Dia da Igualdade Feminina.
Cada uma das 9 frases traz um contraponto instigante e atualiza uma nova ideia em sintonia com o ambiente, dialogando com a cidade, como “O cara que inventou a cerveja foi uma mulher”, perto de bares, e “O melhor artilheiro da seleção é uma mulher nordestina”, em frente a estádios de futebol.
Frases como “O pai do wi-fi foi uma mulher, atriz e refugiada”; “O gênio por trás do GPS foi uma mulher negra”; “O arquiteto que projetou o MASP foi uma mulher imigrante”; “O ator que mais vezes venceu o Oscar foi uma mulher”; “O cientista precursor da energia limpa foi uma mulher”; “O primeiro piloto de testes da história foi uma mulher” e “O autor do primeiro romance do mundo foi uma mulher japonesa” estavam presentes em 15 pontos da cidade de São Paulo.
ALVES, S. Disponível em: www.b9.com.br. Acesso em: 5 nov. 2021 (adaptado).
Ao provocar a reflexão sobre o Dia da Igualdade Feminina, a campanha descrita nesse texto fundamenta-se no(a)
Resolução comentada
A questão pede que você identifique o recurso em que a campanha se apoia para provocar a reflexão sobre a igualdade feminina, o que exige analisar a estrutura das frases dos painéis.
Todas as frases seguem o mesmo molde: um substantivo masculino associado a algo de prestígio ("o cara", "o pai", "o arquiteto", "o ator", "o cientista", "o primeiro piloto", "o autor") seguido de "foi/é uma mulher". Em "O cara que inventou a cerveja foi uma mulher" ou "O arquiteto que projetou o MASP foi uma mulher imigrante", o artigo e o substantivo no masculino criam a expectativa de um homem, e o final da frase a quebra. A campanha diz que o texto traz "um contraponto instigante", e esse contraponto é justamente o choque entre o gênero gramatical esperado e a mulher revelada.
Esse choque, feito de propósito, é o que faz o leitor perceber o quanto associa feitos importantes a homens, ou seja, a reflexão sobre estereótipos de gênero nasce dessa oposição.
A resposta é a oposição proposital entre as referências de gênero presentes nas frases. O local de instalação é citado como um complemento ("em sintonia com o ambiente"), mas não é o que gera a reflexão sobre igualdade, pois nem todas as frases dependem do lugar. Os feitos citados não são "amplamente conhecidos": a surpresa vem justamente de se ignorar essas mulheres. O padrão repetido das frases ajuda na fixação, mas não é o fundamento da provocação. E os temas não são "muito presentes no dia a dia" (wi-fi, GPS e Oscar não fazem esse papel), o que também enfraquece essa opção.