Questão 25 do ENEM 2023 — Língua Portuguesa
Terça-feira, 30 de maio de 1893. Eu gosto muito de todas as festas de Diamantina; mas quando são na igreja do Rosário, que é quase pegada à chácara de vovó, eu gosto ainda mais. Até parece que a festa é nossa. E este ano foi mesmo. Foi sorteada para rainha do Rosário uma ex-escrava de vovó chamada Júlia e para rei um negro muito entusiasmado que eu não conhecia. Coitada de Júlia! Ela vinha há muito tempo ajuntando dinheiro para comprar um rancho. Gastou tudo na festa e ainda ficou devendo. Agora é que eu vi como
fica caro para os pobres dos negros serem reis por um dia. Júlia com o vestido e a coroa já gastou muito. Além disso, teve de dar um jantar para a corte toda. A rainha tem uma caudatária que vai atrás segurando na capa que tem uma grande cauda. Esta também é negra da chácara e ajudou no jantar. Eu acho graça é no entusiasmo dos pretos neste reinado tão curto. Ninguém rejeita o cargo, mesmo sabendo a despesa que dá!
MORLEY, H. Minha vida de menina. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.
O trecho apresenta marcas textuais que justificam o emprego da linguagem coloquial. O tom informal do discurso se deve ao fato de que se trata de um(a)
Resolução comentada
A questão pede o gênero textual ao qual o trecho pertence, a partir das marcas que justificam o tom informal.
O texto abre com uma data completa: “Terça-feira, 30 de maio de 1893”. Em seguida, a narradora fala de si em primeira pessoa (“Eu gosto muito de todas as festas”, “Eu acho graça”), comenta seus sentimentos (“Coitada de Júlia!”) e reflete sobre a situação dos negros pobres (“Agora é que eu vi como fica caro [...] serem reis por um dia”). Não há destinatário nomeado, saudação nem despedida, e o texto registra o dia de forma espontânea, sem preocupação literária explícita.
Esses elementos (data, relato do cotidiano, subjetividade, ausência de interlocutor definido) são típicos do diário pessoal, gênero em que a informalidade é natural, pois quem escreve fala consigo mesma.
A resposta é o registro no diário da autora. A carta pessoal exigiria um destinatário e marcas de interlocução; a narrativa regionalista se definiria por falas e ambientes típicos de uma região, o que não é o foco; a narrativa de memórias pressuporia distância temporal, mas o texto trata de um fato do próprio dia e do dia seguinte; e a narrativa oral não se sustenta, porque o texto é escrito e datado.