Questão 24 do ENEM 2023 — Língua Portuguesa
Proclamação do amor antigramática
“Dá-me um beijo”, ela me disse, E eu nunca mais voltei lá. Quem fala “dá-me” não ama, Quem ama fala “me dá” “Dá-me um beijo” é que é correto, É linguagem de doutor, Mas “me dá” tem mais afeto, Beijo me-dado é melhor. A gramática foi feita Por um velho professor, Por isso é tão má receita Pra dizer coisas de amor. O mestre pune com zero Quem não diz “amo-te”. Aposto Que em casa ele é mais sincero E diz pra mulher: “te gosto” Delírio dos olhos meus, Estás ficando antipática. Pelo diabo ou por deus Manda às favas a gramática. Fala, meu cheiro de rosa, Do jeito que estou pedindo: “Hoje estou menas formosa, Com licença, vou se indo”. Comete miles de erros, Mistura tu com você, E eu proclamarei aos berros: “Vós és o meu bem querer”.
LAGO, M. Disponível em: www.mariolago.com.br. Acesso em: 30 out. 2021.
Nesse poema, o eu lírico defende o uso de algumas estruturas consideradas inadequadas na norma-padrão da língua. Esse uso, exemplificado por “me dá” e “te gosto”, é legitimado
Resolução comentada
A questão pede o fator que legitima, no poema, o uso de “me dá” e “te gosto” em lugar das formas previstas pela norma-padrão.
O eu lírico defende que a gramática “é tão má receita / Pra dizer coisas de amor”, porque “‘me dá’ tem mais afeto”. Repare no que justifica a escolha: não é a forma em si, mas a situação em que ela é usada, uma conversa íntima entre namorados (“Dá-me um beijo”, ela me disse; “Fala, meu cheiro de rosa”). Em um pedido amoroso, a linguagem de “doutor” soa fria e artificial, e a fala espontânea cumpre melhor o objetivo comunicativo.
Isso é exatamente a ideia de adequação ao contexto de situação: quem fala, com quem, sobre o quê e com que intenção. É o contexto de afeto e intimidade, desenvolvido em todo o poema, que torna aceitáveis as formas coloquiais.
A resposta é o contexto de situação discutido ao longo do poema. As demais explicações falham porque tratam de outros aspectos: a função poética descreve o trabalho com a forma do texto e não justifica uma escolha de registro; a interlocução entre o eu lírico e o outro apenas identifica quem fala, sem explicar a adequação; e o valor social de variedades linguísticas é um argumento amplo que o poema não desenvolve, pois seu foco é a situação de afeto.