Questão 10 do ENEM 2023 — Literatura
Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.
ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 8 ago. 2015.
No fragmento transcrito da dedicatória “Ao leitor”, em Memórias póstumas de Brás Cubas, o autor serve-se da figura do narrador-defunto para
Resolução comentada
A questão pede a função do narrador-defunto no prefácio “Ao leitor”, de “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis.
No trecho, o narrador se dirige diretamente a quem lê. Ele compara seu livro ao de Stendhal, aos de Sterne e Xavier de Maistre, prevê poucos leitores (“Dez? Talvez cinco”) e fala em “Obra de finado”. Ele define o tom da escrita: “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”. Por fim, diz que o livro ficará “privado da estima dos graves e do amor dos frívolos”, ironizando os dois tipos de público.
Esse jeito de falar, cheio de ironia e de provocação, mostra a técnica típica do narrador machadiano: ele interrompe a narrativa, faz digressões e conversa com o leitor, em tom sarcástico e desafiador. O fato de ser um defunto lhe dá liberdade para dizer o que quiser, sem as convenções sociais.
A resposta é fazer intromissões na narrativa, introduzindo pausas no relato em que estabelece com o leitor um diálogo de tom sarcástico e provocativo. As opções que falam em desqualificar o gênero romance, em ressaltar a inverossimilhança, em usar a terceira pessoa (o texto está em primeira pessoa: “eu, Brás Cubas”) ou em sobrepor a melancolia ao humor, valorizando o tom sóbrio, falham porque o narrador mistura os dois elementos (“galhofa” e “melancolia”) e não adota a sobriedade do romance burguês.