Questão 86 do ENEM 2023 — História
Durante a Revolução Francesa, um certo padre Niollant escondeu-se no pequeno castelo de L’Escarbas. Pagou amplamente a hospitalidade do velho fidalgo ocupando-se da educação de sua filha, Anaïs. A presença da mãe em nada modificou essa educação masculina dada a uma jovem criatura já muito inclinada à independência em virtude da vida no campo. O padre transmitiu à aluna sua intrepidez de opiniões e sua facilidade de julgamento, sem pensar que essas qualidades, tão necessárias num homem, se tornam defeitos numa mulher destinada aos humildes afazeres de mãe de família. Embora o padre recomendasse continuamente à aluna ser tanto mais graciosa e modesta quanto seu saber era mais extenso, a senhorita de Nègrepelisse ficou com excelente opinião de si mesma.
BALZAC. H. Ilusões perdidas. São Paulo: Penguin Classics:
Cia. das Letras, 2011 (adaptado).
O comportamento desenvolvido pela personagem evidencia uma postura de
Resolução comentada
Educada como um homem, a personagem de Balzac desenvolve independência de opinião e autoconfiança incomuns para uma mulher da época, contrariando o papel que a sociedade esperava dela. Esse comportamento revela uma ruptura de valores institucionalizados, já que ela não se conforma ao destino de submissão reservado às mulheres.
A leitura que fala em aceitação da hierarquia de gênero mostra o oposto do texto: a personagem desenvolve "excelente opinião de si mesma" e traços vistos como "defeitos numa mulher", ou seja, ela rompe, e não aceita, as expectativas de gênero da época.