Questão 31 do ENEM 2023 — Literatura
Migalhas
Entre a toalha branca e um bule de café
seria inapropriado dizer
eu não te amo mais.
Era necessário algo mais solene,
um jardim japonês para as perdas pensadas,
um noturno de tempestade para arrebentar de dor,
uma praia de pedras para chorar em silêncio,
uma cama alta para o incenso da despedida,
uma janela dando para o abismo.
No entanto você abaixa os olhos
e recolhe lentamente as migalhas de pão
sobre a mesa posta para dois.
MARQUES, A. M. A vida submarina. São Paulo: Cia. das Letras, 2021.
Nesse poema, a representação do sentimento amoroso recupera a tradição lírica, mas se ajusta à visão contemporânea ao
Resolução comentada
O poema lista cenários grandiosos para um término de namoro (jardim japonês, tempestade, praia de pedras) só para, no final, mostrar a pessoa recolhendo migalhas de pão silenciosamente. Esse contraste dilui em banalidade a comoção de um amor frustrado.
A leitura que fala em condicionar a existência da paixão a espaços idealizados vai na direção oposta: o poema evoca esses espaços grandiosos justamente para negá-los, mostrando que o fim do amor, na vida real, acontece em uma cena banal — à mesa, com migalhas — e não em cenários idealizados.