Questão 63 do ENEM 2022 — Filosofia
A um príncipe, portanto, não é necessário ter de fato todas as qualidades, mas é indispensável parecer tê-las. Aliás, ousarei dizer que, se as tiver e utilizar sempre, serão danosas, enquanto, se parecer tê-las, serão úteis. Assim, deves parecer clemente, fiel, humano, íntegro, religioso — e sê-lo, mas com a condição de estares com o ânimo disposto a, quando necessário, não o seres, de modo que possas e saibas como tornar-te o contrário.
MAQUIAVEL, N. O príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2004 (adaptado).
Segundo o autor, a conquista e a conservação do poder político exigem a
Resolução comentada
A questão pede que você identifique, segundo Maquiavel, o que a conquista e a manutenção do poder exigem do governante.
No trecho de O príncipe, o autor afirma que o governante não precisa ter de fato todas as virtudes, mas deve parecer tê-las. Se as praticasse sempre, isso poderia prejudicá-lo. Assim, deve ser clemente, fiel e religioso "com a condição de estares com o ânimo disposto a, quando necessário, não o seres", ou seja, deve saber agir de modo contrário quando a situação exigir.
Para Maquiavel, a política segue a lógica da eficácia, e não a da moral tradicional. O príncipe precisa adaptar-se às circunstâncias (a fortuna), usando a virtù, a habilidade política, e deixando a ética de lado se a preservação do Estado estiver em jogo. Isso significa flexibilidade moral.
A resposta é a flexibilidade moral do monarca. A retomada dos valores cristãos contraria o texto, que admite o abandono da virtude quando necessário. A consulta aos cidadãos não é mencionada. O imperativo categórico é conceito de Kant, que defende uma moral universal sem exceções, o oposto da posição de Maquiavel. A liberdade incondicional do estadista também não aparece, pois o príncipe deve parecer virtuoso e se orientar pelas circunstâncias.