Questão 62 do ENEM 2022 — Filosofia
A velha potência de morte em que se simbolizava o poder soberano é agora, cuidadosamente, recoberta pela administração dos corpos. Aparecimento, também, nos terrenos das práticas políticas e observações econômicas, dos problemas de natalidade, longevidade, saúde pública, habitação e migração.
FOUCAULT, M. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988 (adaptado).
O texto aponta para a emergência, a partir de meados do século XIX, de um novo tipo de gestão da sociedade ocidental, centrado na
Resolução comentada
A questão cobra o conceito foucaultiano de biopoder: a passagem de um poder que ameaça matar para um poder que administra e organiza a vida das populações.
No trecho, Foucault contrasta a "velha potência de morte" do soberano, que decidia sobre a vida dos súditos pela espada, com uma nova forma de poder que "recobre" essa potência pela administração dos corpos. Os temas citados (natalidade, longevidade, saúde pública, habitação, migração) são dados mensuráveis de uma população. Repare que o Estado e a economia passam a medi-los, prevê-los e regulá-los por estatísticas e políticas públicas.
A resposta correta é a que fala em ordenação calculista das vidas: gerir a sociedade significa contabilizar, classificar e dirigir a vida biológica da população, com cálculos e normas, em vez de exibir o poder de matar.
As distratoras falham por desviar do eixo do texto. A exposição ostensiva das punições descreve justamente o poder soberano antigo, o suplício público, que o texto diz estar sendo recoberto. A distribuição igualitária das riquezas e a supressão das fronteiras não são tratadas pelo autor, que menciona migração apenas como um problema de gestão. A espacialização controlada das classes remete a um controle de lugares sociais que o trecho não discute.