Questão 26 do ENEM 2022 — Língua Portuguesa
O lobo que não é mau A primeira coisa a saber é que o guará não é, na verdade, um lobo. Embora seja o maior canídeo silvestre da América do Sul, sua espécie (Chrysocyon brachyurus) é de difícil classificação. Alguns cientistas dizem que é parente das raposas, outros, que é parente do cachorro-vinagre sul-americano. Mas, de lobo mesmo, ele não tem nada. Além disso, é um animal onívoro. Porém, em algumas regiões, a sua dieta chega a quase 70% de frutas, especialmente da lobeira, uma árvore típica das savanas brasileiras, que contribui para a saúde do animal, prevenindo um tipo de verminose que ataca os rins do guará. O lobo-guará não é um animal perigoso ao homem. Não existe nenhum registro, em toda a história, de um guará que tenha atacado uma pessoa, mas, ainda assim, são vistos como “maléficos”. Por quê? Porque, em ambientes degradados, o lobo, para sobreviver, acaba atacando galinheiros ou comendo aves que são criadas soltas. Com a desculpa de “proteger sua criação”, pessoas com baixo nível de consciência ecológica acabam matando os animais. Se não bastassem a matança e a destruição de ambientes naturais, o lobo-guará ainda apresenta grande índice de morte por atropelamento em estradas. O fato é que o lobo-guará precisa de nós mais do que nunca na história.
FERRAREZI JR., C. Revista QShow, n. 20, nov. 2015 (adaptado). Esse texto de divulgação científica utiliza como principal estratégia argumentativa a
Resolução comentada
A questão pede que você identifique a principal estratégia argumentativa de um texto de divulgação científica, ou seja, como o autor constrói sua defesa do lobo-guará.
Repare no título e no começo do texto: "O lobo que não é mau" e "A primeira coisa a saber é que o guará não é, na verdade, um lobo". O título faz referência clara às histórias infantis em que o lobo é o vilão, e o texto passa a desmontar essa imagem. Em seguida, o autor apresenta dados concretos ("a sua dieta chega a quase 70% de frutas", a prevenção de verminose pela lobeira) e fatos históricos ("Não existe nenhum registro, em toda a história, de um guará que tenha atacado uma pessoa"). O contraste entre o imaginário da história popular e as informações científicas organiza toda a argumentação.
A resposta é, portanto, a intertextualidade, que busca um contraponto numa famosa história infantil, confrontada com dados concretos e fatos históricos.
Os demais caminhos não se sustentam. Falar em sedução pelo "lado delicado e afetuoso" exagera: o texto não trabalha com afeto, e sim com informação. A comoção pela perseguição dos fazendeiros "com baixo grau de instrução" é uma leitura parcial, pois o texto só menciona a falta de consciência ecológica de algumas pessoas e não é o eixo da argumentação. Não há chantagem, pois o autor não distorce a índole do animal; ele explica que o ataque a galinheiros ocorre por sobrevivência em ambientes degradados. Também não há intimidação: palavras como "matança" e "atacando" aparecem para descrever o problema, não para amedrontar o leitor.