Questão 31 do ENEM 2022 — Literatura
Era o êxodo da seca de 1898. Uma ressurreição de cemitérios antigos — esqueletos redivivos, com o aspecto terroso e o fedor das covas podres.
Os fantasmas estropiados como que iam dançando, de tão trôpegos e trêmulos, num passo arrastado de quem leva as pernas, em vez de ser levado por elas.
Andavam devagar, olhando para trás, como quem quer voltar. Não tinham pressa em chegar, porque não sabiam aonde iam. Expulsos de seu paraíso por espadas de fogo, iam, ao acaso, em descaminhos, no arrastão dos maus fados.
Fugiam do sol e o sol guiava-os nesse forçado nomadismo.
Adelgaçados na magreira cômica, cresciam, como se o vento os levantasse. E os braços afinados desciam-lhes aos joelhos, de mãos abanando.
Vinham escoteiros. Menos os hidrópicos — de ascite consecutiva à alimentação tóxica — com os fardos das barrigas alarmantes.
Não tinham sexo, nem idade, nem condição nenhuma. Eram os retirantes. Nada mais.
ALMEIDA, J. A. A bagaceira. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1978.
Os recursos composicionais que inserem a obra no chamado “Romance de 30” da literatura brasileira manifestam-se aqui no(a)
Resolução comentada
Os retirantes são descritos como “esqueletos redivivos”, com “fedor das covas podres”, uma imagem chocante e direta do sofrimento provocado pela seca. Esse é o traço marcante do Romance de 30: o retrato cru da realidade dos retirantes.
A opção que fala em contemplação lírica da paisagem transformada em alegoria propõe o oposto do que o movimento buscava: em vez de uma contemplação lírica e idealizada, o Romance de 30 rompe com esse tom romântico para mostrar a miséria sem filtros.