Questão 12 do ENEM 2022 — Língua Portuguesa

Papos

— Me disseram…
— Disseram-me.
— Hein?
— O correto é “disseram-me”. Não “me disseram”.
— Eu falo como quero. E te digo mais… Ou é “digo-te”?
— O quê?
— Digo-te que você…
— O “te” e o “você” não combinam.
— Lhe digo?
— Também não. O que você ia me dizer?
— Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. […]
— Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender. Mais uma correção e eu…
— O quê?
— O mato.
— Que mato?
— Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem? Pois esqueça-o e para-te. Pronome no lugar certo é elitismo!
— Se você prefere falar errado…
— Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou entenderem-me?

VERISSIMO, L. F. Comédias para se ler na escola.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2001 (adaptado).

Nesse texto, o uso da norma-padrão defendido por um dos personagens torna-se inadequado em razão do(a)

A
Falta de compreensão causada pelo choque entre gerações.
✓
Contexto de comunicação em que a conversa se dá.
C
Grau de polidez distinto entre os interlocutores.
D
Diferença de escolaridade entre os falantes.
E
Nível social dos participantes da situação.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

O personagem insiste em usar a norma-padrão dos pronomes (como “disseram-me”, “digo-te”) numa conversa informal do dia a dia, o que soa artificial e deslocado — a norma culta é inadequada porque não combina com o contexto de comunicação espontâneo em que a conversa ocorre.

A opção sobre o nível social dos participantes é tentadora porque o texto satiriza um comportamento elitista de quem valoriza a norma culta; porém o problema apontado não é a diferença social entre os falantes, e sim usar uma linguagem formal e rebuscada numa situação claramente informal.

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