Questão 22 do ENEM 2020 — Língua Portuguesa
Epitáfio Devia ter amado mais Ter chorado mais Ter visto o sol nascer Devia ter arriscado mais E até errado mais Ter feito o que eu queria fazer Queria ter aceitado As pessoas como elas são Cada um sabe a alegria E a dor que traz no coração [...]
Devia ter complicado menos Trabalhado menos Ter visto o sol se pôr Devia ter me importado menos Com problemas pequenos Ter morrido de amor
BRITTO, S. A melhor banda de todos os tempos da última semana. Rio de Janeiro: Abril Music, 2001 (fragmento). O gênero epitáfio, palavra que significa uma inscrição colocada sobre lápides, tem a função social de homenagear os mortos. Nesse texto, a apropriação desse gênero no título da letra da canção cria o efeito de
Resolução comentada
A questão pede o efeito de sentido produzido quando um gênero textual de função específica (o epitáfio) é "emprestado" como título de uma letra de canção.
O epitáfio real é uma inscrição sobre a lápide que homenageia quem morreu. Aqui, porém, o texto não fala sobre um morto: quem fala é o próprio eu lírico, em balanço de vida, como se já estivesse diante da morte. Repare nos verbos: "Devia ter amado mais", "Ter chorado mais", "Devia ter arriscado mais", "Devia ter complicado menos". Todos estão na forma "devia + infinitivo pessoal composto", que expressa algo que deveria ter sido feito e não foi.
Por isso, a apropriação do gênero cria o efeito de expressar o desejo de reverter atitudes: o eu lírico, no "fim", lamenta o que fez e o que deixou de fazer e deixa implícito que gostaria de ter vivido de outro modo ("Ter morrido de amor", "Ter visto o sol nascer"). O título funciona como o "último recado" de alguém arrependido.
As respostas que falam em destacar a importância de uma pessoa falecida, em homenagear sepultados ou em registrar características pessoais descrevem a função social do epitáfio verdadeiro, não o efeito da apropriação feita na canção, em que não há elogio a ninguém nem descrição de um indivíduo. A resposta que fala em sugerir notações para lápides toma o título ao pé da letra, esquecendo que se trata de uma letra de música e não de um texto gravado em pedra.