Questão 44 do ENEM 2019 — Literatura
Toca a sirene na fábrica,
e o apito como um chicote
bate na manhã nascente
e bate na tua cama
no sono da madrugada.
Ternuras da áspera lona
pelo corpo adolescente.
É o trabalho que te chama.
Às pressas tomas o banho,
tomas teu café com pão,
tomas teu lugar no bote
no cais do Capibaribe.
Deixas chorando na esteira
teu filho de mãe solteira.
Levas ao lado a marmita,
contendo a mesma ração
do meio de todo o dia,
a carne-seca e o feijão.
De tudo quanto ele pede
dás só bom-dia ao patrão,
e recomeças a luta
na engrenagem da fiação.
MOTA, M. Canto ao meio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.
Nesse texto, a mobilização do uso padrão das formas verbais e pronominais
Resolução comentada
O poema alterna cuidadosamente as formas verbais e pronominais na segunda pessoa ("tomas", "deixas", "teu filho") para se dirigir ao trabalhador, distinguindo-o claramente do patrão e do filho mencionados na história. Esse uso está a serviço do projeto poético, ajudando o leitor a identificar quem é quem no relato.
A opção que fala em alternância de tempos verbais para fazer a narrativa progredir não descreve o texto, que usa consistentemente o presente do indicativo dirigido a "tu": o efeito central não é temporal, e sim a clareza sobre os referentes (quem faz o quê) por meio da pessoa verbal.