Questão 41 do ENEM 2019 — Literatura
Ela nasceu lesma, vivia no meio das lesmas, mas não estava satisfeita com sua condição. Não passamos de criaturas desprezadas, queixava-se. Só somos conhecidas por nossa lentidão. O rastro que deixaresmos na História será tão desprezível quanto a gosma que marca nossa passagem pelos pavimentos.
A esta frustração correspondia um sonho: a lesma queria ser como aquele parente distante, o escargot. O simples nome já a deixava fascinada: um termo francês, elegante, sofisticado, um termo que as pessoas pronunciavam com respeito e até com admiração. Mas, lembravam as outras lesmas, os escargots são comidos, enquanto nós pelo menos temos chance de sobreviver. Este argumento não convencia a insatisfeita lesma, ao contrário: preferiria exatamente terminar sua vida desta maneira, numa mesa de toalha adamascada, entre talheres de prata e cálices de cristal. Assim como o mar é o único túmulo digno de um almirante batavo, respondia, a travessa de porcelana é a única lápide digna dos meus sonhos.
SCLIAR, M. Sonho de lesma. In: ABREU, C. F. et al. A prosa do mundo. São Paulo: Global, 2009.
Incorporando o devaneio da personagem, o narrador compõe uma alegoria que representa o anseio de
Resolução comentada
A lesma sonha em terminar a vida como um escargot, servido com elegância numa mesa refinada — um desejo que ela mesma reconhece como distante da própria condição. Esse devaneio impossível representa o anseio de concretizar um ideal utópico, algo que nunca poderia realmente acontecer.
A opção que fala em restaurar uma felicidade anterior não se aplica, pois não há, na história, um estado de felicidade passada da lesma a ser recuperado: o desejo dela é por algo novo e inatingível, não por um retorno a uma condição que já existiu.