Questão 33 do ENEM 2019 — Literatura

Inverno! Inverno! Inverno!

Tristes nevoeiros, frios negrumes da longa treva boreal, descampados de gelo cujo limite escapa-nos sempre, desesperadamente, para lá do horizonte, perpétua solidão inóspita, onde apenas se ouve a voz do vento que passa uivando como uma legião de lobos, através da cidade de catedrais e túmulos de cristal na planície, fantasmas que a miragem povoam e animam, tudo isto: decepções, obscuridade, solidão, desespero e a hora invisível que passa como o vento, tudo isto é o frio inverno da vida.

Há no espírito o luto profundo daquele céu de bruma dos lugares onde a natureza dorme por meses, à espera do sol avaro que não vem.

POMPEIA, R. Canções sem metro. Campinas: Unicamp, 2013

Reconhecido pela linguagem impressionista, Raul Pompeia desenvolveu-a na prosa poética, em que se observa

A
Imprecisão no sentido dos vocábulos.
B
Dramaticidade como elemento expressivo.
C
Subjetividade em oposição à verossimilhança.
D
Valorização da imagem com efeito persuasivo.
✓
Plasticidade verbal vinculada à cadência melódica.
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

O texto de Raul Pompeia constrói imagens sensoriais do inverno (nevoeiros, gelo, o uivo do vento) organizadas em um ritmo fluido, quase musical, típico da prosa poética impressionista. Esse recurso é a plasticidade verbal aliada a uma cadência melódica.

A opção que fala em subjetividade oposta à verossimilhança não capta o traço mais evidente do impressionismo aqui, que não é uma discussão sobre realismo: é o modo como as palavras criam imagens visuais e sonoras encadeadas ritmicamente, isto é, a plasticidade e a musicalidade da linguagem.

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