Questão 21 do ENEM 2019 — Literatura
Menina A máquina de costura avançava decidida sobre o pano, Que bonita que a mãe era, com os alfinetes na boca. Gostava de olhá-la calada, estudando seus gestos, enquanto recortava retalhos de pano com a tesoura. Interrompia às vezes seu trabalho, era quando a mãe precisava da tesoura. Admirava o jeito decidido da mãe ao cortar pano, não hesitava nunca, nem errava. A mãe sabia tanto! Tita chamava-a de ( ) como quem diz ( ). Tentava não pensar as palavras, mas sabia que na mesma hora da tentativa tinha-as pensado. Oh, tudo era tão difícil. A mãe saberia o que ela queria perguntar-lhe intensamente agora quase com fome depressa depressa antes de morrer, tanto que não se conteve e — Mamãe, o que é desquitada? — atirou rápida com uma voz sem timbre. Tudo ficou suspenso, se alguém gritasse o mundo acabava ou Deus aparecia — sentia Ana Lúcia. Era muito forte aquele instante, forte demais para uma menina, a mãe parada com a tesoura no ar, tudo sem solução podendo desabar a qualquer pensamento, a máquina avançando desgo – vernada sobre o vestido de seda brilhante espalhando luz luz luz. ÂNGELO. I. Menina. In: A face horrível. São Paulo: Lazuli, 2017. Escrita na década de 1960, a narrativa põe em evidência uma dramaticidade centrada na
Resolução comentada
A menina Ana Lúcia observa em silêncio a palavra "desquitada", sem compreender totalmente seu peso, mas sentindo a tensão que ela provoca na mãe. O texto mostra, assim, um estigma social da época (a separação conjugal) filtrado pelo olhar ainda infantil da personagem.
A opção que fala em percepção de abandono não se aplica, pois não há abandono no trecho: a tensão nasce da palavra carregada de preconceito social sobre o desquite, e não da ausência de alguém na vida da menina.