Questão 15 do ENEM 2018 — Literatura
Dia 20/10
É preciso não beber mais. Não é preciso sentir vontade de beber e não beber: é preciso não sentir vontade de beber. É preciso não dar de comer aos urubus. É preciso fechar para balanço e reabrir. É preciso não dar de comer aos urubus. Nem esperanças aos urubus. É preciso sacudir a poeira. É preciso poder beber sem se oferecer em holocausto. É preciso. É preciso não morrer por enquanto. É preciso sobreviver para verificar. Não pensar mais na solidão de Rogério, e deixá-lo. É preciso não dar de comer aos urubus. É preciso enquanto é tempo não morrer na via pública.
TORQUATO NETO. In: MENDONÇA, J. (Org.) Poesia (im)popular brasileira.
São Bernardo do Campo: Lamparina Luminosa, 2012.
O processo de construção do texto formata uma mensagem por ele dimensionada, uma vez que
Resolução comentada
A repetição insistente de "é preciso não morrer" e a referência a "não morrer na via pública" revelam que o eu lírico está plenamente consciente de estar diante de um fim próximo — o texto constrói, com lucidez, a percepção antecipada da própria morte.
A leitura sobre lacunas da lucidez em desconstrução sugeriria um sujeito confuso ou fragmentado mentalmente, mas o poema mostra o oposto: uma consciência muito clara e insistente do risco de morrer, o que é a marca central do texto.