Questão 7 do ENEM 2017 — Literatura
Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por alguns instantes as feições
defuntas. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero […].
Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver, mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.
ASSIS, M. A causa secreta, Disponível em: www.dominimopublico.gov.br
Acesso em: 9 out. 2015.
No fragmento, o narrador adota um ponto de vista que acompanha a perspectiva de Fortunato. O que singulariza esse procedimento narrativo é o registro do(a)
Resolução comentada
O narrador conta a cena pelos olhos de Fortunato, e o que chama atenção nesse ponto de vista é justamente o que ele sente ao ver o rival sofrer: em vez de compaixão, Fortunato observa a dor de Garcia com prazer, saboreando-a como um espetáculo — daí a satisfação diante do sofrimento alheio, um traço de sadismo.
A ideia de que ele estaria apenas espantado diante da demonstração de afeto de Garcia tenta confundir o leitor: Fortunato realmente fica "assombrado" no início, mas essa reação inicial passa rápido e dá lugar a algo bem mais perturbador — o deleite com o choro de Garcia ("saboreou tranquilo", "deliciosamente longa"), que é o verdadeiro foco do trecho.