Questão 24 do ENEM 2017 — Língua Portuguesa
E aqui, antes de continuar este espetáculo, e necessário que façamos uma advertência a todos e a cada um. Neste momento, achamos fundamental que cada um tome uma posição definida. Sem que cada um tome uma posição definida, não é possível continuarmos. É fundamental que cada um tome uma posição, seja para a esquerda, seja para a direita. Admitimos mesmo que alguns tomem uma posição neutra, fiquem de braços cruzados. Mas é preciso que cada um, uma vez tomada sua posição, fique nela! Porque senão, companheiros, as cadeiras do teatro rangem muito e ninguém ouve nada.
FERNANDES, M.; RANGEL, F. Liberdade, liberdade. Porto Alegre: L&PM, 2009,
A peça Liberdade, liberdade, encenada em 1964, apresenta o impasse vivido pela sociedade brasileira em face do regime vigente. Esse impasse é representado no fragmento pelo(a)
Resolução comentada
Ao pedir que cada espectador "tome uma posição", seja para a esquerda ou para a direita, o texto brinca literalmente com a ideia de posição política, transformando a escolha de assento no teatro em metáfora do alinhamento ideológico exigido das pessoas durante o regime militar. Assim, o impasse da sociedade é representado pela correlação entre o posicionamento político e a posição corporal dos espectadores nas cadeiras.
A leitura focada no barulho das cadeiras fica só na superfície da cena, sem perceber que esse detalhe é apenas o efeito cômico de uma metáfora política mais profunda: a plateia sendo obrigada a "tomar lado" fisicamente, como ocorria no contexto de polarização da época.