Questão 13 do ENEM 2017 — Literatura
O farrista
Quando o almirante Cabral
Pôs as patas no Brasil
O anjo da guarda dos índios
Estava passeando em Paris.
Quando ele voltou de viagem
O holandês já está aqui.
O anjo respira alegre:
“Não faz mal, isto é boa gente,
Vou arejar outra vez.”
O anjo transpôs a barra,
Diz adeus a Pernambuco,
Faz barulho, vuco-vuco,
Tal e qual o zepelim
Mas deu um vento no anjo,
Ele perdeu a memória.
E não voltou nunca mais.
MENDES, M. História do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992
A Obra de Murilo Mendes situa-se na fase inicial do Modernismo, cujas propostas estéticas transparecem, no poema, por um eu lírico que
Resolução comentada
O poema narra a chegada dos portugueses e depois dos holandeses ao Brasil de forma irônica e despretensiosa, tratando a colonização quase como uma "farra", sem o tom solene de heróis fundadores. Esse tratamento irreverente e crítico do passado colonial, típico da primeira fase do Modernismo, mostra um eu lírico que remonta ao colonialismo sob um viés iconoclasta, isto é, que desmonta o mito histórico oficial.
A leitura de que o poema descreve a formação do povo brasileiro parece próxima, mas está errada: o poema não narra a origem étnica do país — ele ironiza a chegada dos europeus e a distração do "anjo da guarda" que deveria proteger os índios, criticando o processo colonial, não a gênese do povo brasileiro.