Questão 99 do ENEM 2016 — Literatura
PINHÃO Sai ao mesmo tempo que BENONA entra.
BENONA: Eurico, Eudoro Vicente está lá fora e quer falar com você.
EURICÃO: Benona, minha irmã, eu sei que ele está lá fora, mas não quero falar com ele.
BENONA: Mas Eurico, nós lhe devemos certas atenções.
EURICÃO: Você, que foi noiva dele. Eu, não!
BENONA: Isso são coisas passadas.
EURICÃO: Passadas para você, mas o prejuízo foi meu. Esperava que Eudoro, com todo aquele dinheiro, se tornasse meu cunhado. Era uma boca a menos e um patrimônio a mais. E o peste me traiu. Agora, parece que ouviu dizer que eu tenho um tesouro. E vem louco atrás dele, sedento, atacado de verdadeira hidrofobia. Vive farejando ouro, como um cachorro da molest’a, como um urubu, atrás do sangue dos outros. Mas ele está enganado. Santo Antônio há de proteger minha pobreza e minha devoção.
SUASSUNA, A. O santo e a porca, Rio de Janeiro: José Olympio, 2013 (fragmento)
Nesse texto teatral, o emprego das expressões “o peste” e “cachorro da molest’a” contribui para
Resolução comentada
Expressões como "o peste" e "cachorro da molest'a" são marcas típicas da fala do sertão nordestino, cenário da obra de Ariano Suassuna. Elas servem para caracterizar usos linguísticos de uma região, dando cor local e autenticidade às personagens.
A leitura de que essas expressões marcam a classe social das personagens é o distrator clássico: variação regional não é o mesmo que variação social. Nada no emprego dessas expressões indica classe social — Euricão, aliás, é um homem de posses; o que elas revelam é de onde ele fala, não quanto ele tem.