Questão 35 do ENEM 2015 — Sociologia
Quanto ao “choque de civilizações”, é bom lembrar a carta de uma menina americana de sete anos cujo pai era piloto na Guerra do Afeganistão: ela escreveu que — embora amasse muito seu pai — estava pronta a deixá-lo morrer, a sacrificá-lo por seu país. Quando o presidente Bush citou suas palavras, elas foram entendidas como manifestação “normal” de patriotismo americano; vamos conduzir uma experiência mental simples e imaginar uma menina árabe maometana pateticamente lendo para as câmeras as mesmas palavras a respeito do pai que lutava pelo Talibã — não é necessário pensar muito sobre qual teria sido a nossa reação.
ZIZEK, S. Bem-vindo ao deserto do real. São Paulo: Bom Tempo, 2003.
A situação imaginária proposta pelo autor explicita o desafio cultual do(a)
Resolução comentada
Zizek mostra que o mesmo gesto — uma criança disposta a sacrificar o pai pela pátria — é lido como patriotismo quando é “nosso” e como fanatismo quando é do “outro”. O experimento expõe a dificuldade de nos colocarmos no lugar do diferente e julgá-lo pelos mesmos critérios: é o desafio do exercício da alteridade.
A opção que cita a prática da diplomacia desvia o foco: o problema apontado não é de negociação entre Estados, mas de percepção cultural — o duplo padrão etnocêntrico com que avaliamos os outros.