Questão 107 do ENEM 2015 — Literatura
A pátria
Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum pais como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera,
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!
Boa terra! jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o teto que agasalha…
Quem com o seu suor a fecunda e umedece,
Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!
Criança! não verás pais nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!
BILAC, O. Poesias infantis. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1929.
Publicado em 1904, o poema A pátria harmoniza-se com um projeto ideológico em construção na Primeira República. O discurso poético de Olavo Bilac ecoa esse projeto, na medida em que
Resolução comentada
O poema é ufanista: a «boa terra» jamais nega o pão a quem trabalha, e quem a fecunda com o suor «é feliz, e enriquece». Nesse discurso, a prosperidade individual depende só do trabalho e da exuberância da terra, não de políticas de governo — ideologia conveniente à Primeira República, que transferia ao indivíduo a responsabilidade pelo próprio destino.
A opção que fala em capacidade produtiva da terra garantindo riqueza já verificada confunde promessa com constatação: o poema não descreve uma riqueza nacional verificada naquele momento, mas idealiza uma terra que sempre recompensaria o esforço de cada um.