Questão 99 do ENEM 2014 — Literatura
TEXTO I
João Guedes, um dos assíduos frequentadores do boliche do capitão, mudara-se da campanha havia três anos. Três anos de pobreza na cidade bastaram para o degradar. Ao morrer, não tinha um vintém nos bolsos e fazia dois meses que saíra da cadeia, onde estivera preso por roubo de ovelha.
A história de sua desgraça se confunde com a da maioria dos que povoam a aldeia de Boa Ventura, uma cidadezinha distante, triste e precocemente envelhecida, situada nos confins da fronteira do Brasil com o Uruguai.
MARTINS, C. Porteira fechada. Porto Alegre: Movimento, 2001 (fragmento).
TEXTO II
Comecei a procurar emprego, já topando o que desse e viesse, menos complicação com os homens, mas não tava fácil. Fui na feira, fui nos bancos de sangue, fui nesses lugares que sempre dão para descolar algum, fui de porta em porta me oferecendo de faxineiro, mas tava todo mundo escabreado pedindo referências, e referências eu só tinha do diretor do presídio.
FONSECA, R. Feliz Ano Novo. São Paulo: Cia. das Letras, 1989 (fragmento).
A oposição entre campo e cidade esteve entre as temáticas tradicionais da literatura brasileira. Nos fragmentos dos dois autores contemporâneos, esse embate incorpora um elemento novo: a questão da violência e do desemprego.
As narrativas apresentam confluência, pois nelas o(a)
Resolução comentada
No Texto I, João Guedes sai do campo e são os “três anos de pobreza na cidade” que o degradam até o roubo; no Texto II, o narrador procura emprego de porta em porta e só encontra portas fechadas por ter passado pelo presídio. Nos dois casos, a falta de oportunidades na cidade soma-se à pobreza de origem rural e empurra as personagens para a criminalidade — é essa a confluência entre as narrativas.
A leitura que atribui a violência ao estímulo do meio urbano é o distrator mais tentador, mas reduz tudo ao meio urbano como causa da violência. Os textos não dizem que a cidade “estimula” o crime por si; mostram um circuito social — pobreza no campo, exclusão na cidade — que produz a marginalização.