Questão 113 do ENEM 2014 — Literatura
Quando Deus redimiu da tirania
Da mão do Faraó endurecido
O Povo Hebreu amado, e esclarecido,
Páscoa ficou da redenção o dia.
Páscoa de flores, dia de alegria
Àquele Povo foi tão afligido
O dia, em que por Deus foi redimido;
Ergo sois vós, Senhor, Deus da Bahia.
Pois mandado pela alta Majestade
Nos remiu de tão triste cativeiro,
Nos livrou de tão vil calamidade.
Quem pode ser senão um verdadeiro Deus,
que veio estirpar desta cidade
O Faraó do povo brasileiro.
DAMASCENO, D. (Org.). Melhores poemas: Gregório de Matos. São Paulo: Globo, 2006.
Com uma elaboração de linguagem e uma visão de mundo que apresentam princípios barrocos, o soneto de Gregório de Matos apresenta temática expressa por
Resolução comentada
Gregório de Matos usa a história bíblica do Êxodo como alegoria: assim como Deus libertou os hebreus do Faraó, pede-se que livre a Bahia do seu “Faraó” — ou seja, do governante tirano. O soneto faz uma crítica velada à forma de governo vigente, disfarçada sob o revestimento religioso, traço da poesia satírico-política do Boca do Inferno.
A leitura de reflexão sobre os dogmas do cristianismo se prende à superfície do texto: a referência religiosa é o veículo da comparação, não o tema. O poema não discute dogmas cristãos — usa-os para atacar o poder local.