Questão 108 do ENEM 2014 — Literatura
Camelôs
Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:
O que vende balõezinhos de cor
O macaquinho que trepa no coqueiro
O cachorrinho que bate com o rabo
Os homenzinhos que jogam boxe
A perereca verde que de repente dá um pulo que engraçado
E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão coisa alguma.
Alegria das calçadas
Uns falam pelos cotovelos:
– “O cavalheiro chega em casa e diz: Meu filho, vai buscar um
pedaço de banana para eu acender o charuto.
Naturalmente o menino pensará: Papai está malu…”
Outros, coitados, têm a língua atada.
Todos porém sabem mexer nos cordéis como o tino
ingênuo de
demiurgos de inutilidades.
E ensinam no tumulto das ruas os mitos heroicos da
meninice…
E dão aos homens que passam preocupados ou tristes
uma lição de infância.
BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.
Uma das diretrizes do Modernismo foi a percepção de elementos do cotidiano como matéria de inspiração poética.
O poema de Manuel Bandeira exemplifica essa tendência e alcança expressividade porque
Resolução comentada
Bandeira transforma a cena banal dos camelôs e seus brinquedos de tostão em poesia: balõezinhos, macaquinho, perereca verde viram matéria lírica que culmina numa “lição de infância”. O poema alcança expressividade porque traduz em linguagem lírica o mosaico de elementos corriqueiros do cotidiano urbano — exatamente a diretriz modernista mencionada no enunciado.
A leitura de que o poema reflete sobre a pobreza urbana desloca o foco: embora os camelôs sejam figuras populares (“coitados”), o poema não faz reflexão social sobre pobreza urbana — ele celebra a alegria ingênua desses “demiurgos de inutilidades”.