Questão 98 do ENEM 2013 — Língua Portuguesa
Novas tecnologias
Atualmente, prevalece na mídia um discurso de exaltação das novas tecnologias, principalmente aquelas ligadas às atividades de telecomunicações. Expressões frequentes como “o futuro já chegou”, “maravilhas tecnológicas” e “conexão total com o mundo” “fetichi – zam” novos produtos, transformando-os em objetos do desejo, de consumo obrigatório. Por esse motivo carregamos hoje nos bolsos, bolsas e mochilas o “futuro” tão festejado.
Todavia, não podemos reduzir-nos a meras vítimas de um aparelho midiático perverso, ou de um aparelho capitalista controlador. Há perversão, certamente, e controle, sem sombra de dúvida. Entretanto, desenvolvemos uma relação simbiótica de dependência mútua com os veículos de comunicação, que se estreita a cada imagem compartilhada e a cada dossiê pessoal transformado em objeto público de entretenimento.
Não mais como aqueles acorrentados na caverna de Platão, somos livres para nos aprisionar, por espontânea vontade, a esta relação sadomasoquista com as estruturas midiáticas, na qual tanto controlamos quanto somos controlados.
SAMPAIO A. S. A microfísica do espetáculo. Disponível em: http://observatoriodaimprensa.com.br. Acesso em: 1 mar 2013 (adaptado).
Ao escrever um artigo de opinião, o produtor precisa criar uma base de orientação linguística que permita alcançar os leitores e convencê-los com relação ao ponto de vista defendido. Diante disso, nesse texto, a escolha das formas verbais em destaque objetiva
Resolução comentada
As formas verbais na 1ª pessoa do plural — "carregamos", "desenvolvemos", "controlamos quanto somos controlados" — incluem o leitor na cena: autor e leitor viram um "nós". Essa escolha torna o leitor copartícipe do ponto de vista de que manipulamos as tecnologias e somos manipulados por elas.
Dizer apenas que as pessoas são controladas pelas novas tecnologias simplifica demais: o texto não diz apenas isso, mas que a relação é de mão dupla ("simbiótica", "tanto controlamos quanto somos controlados") — e o efeito do "nós" é engajar o leitor, não só expor uma tese.