Questão 126 do ENEM 2012 — Literatura
Logia e mitologia
Meu coração
de mil e novecentos e setenta e dois
já não palpita fagueiro
sabe que há morcegos de pesadas olheiras
que há cabras malignas que há
cardumes de hienas infiltradas
no vão da unha na alma
um porco belicoso de radar
e que sangra e ri
e que sangra e ri
a vida anoitece provisória
centuriões sentinelas
do Oiapoque ao Chuí.
CACASO. Lero-lero. Rio de Janeiro: 7Letras; São Paulo: Cosac & Naify, 2002.
O título do poema explora a expressividade de termos que representam o conflito do momento histórico vivido pelo poeta na década de 1970. Nesse contexto, é correto afirmar que
Resolução comentada
Escrito em 1972, em plena ditadura militar, o poema constrói o clima de medo com imagens animalescas — morcegos, cabras malignas, hienas "infiltradas", um porco "de radar" — e com os "centuriões sentinelas do Oiapoque ao Chuí". O poeta caracteriza o momento de opressão através de alegorias de forte poder de impacto.
A leitura de que morcegos, cabras e hienas metaforizam as vítimas do regime militar inverte os papéis: os bichos noturnos e infiltrados metaforizam os agentes da repressão e da vigilância (como o porco com radar), não as vítimas do regime.