Questão 113 do ENEM 2012 — Literatura
Pote Cru é meu pastor. Ele me guiará.
Ele está comprometido de monge.
De tarde deambula no azedal entre torsos de
cachorro, trampas, trapos, panos de regra, couros,
de rato ao podre, vísceras de piranhas, baratas
albinas, dálias secas, vergalhos de lagartos,
linguetas de sapatos, aranhas dependuradas em
gotas de orvalho etc. etc.
Pote Cru, ele dormia nas ruínas de um convento
Foi encontrado em osso.
Ele tinha uma voz de oratórios perdidos.
BARROS, M. Retrato do artista quando coisa. Rio de Janeiro: Record, 2002.
Ao estabelecer uma relação com o texto bíblico nesse poema, o eu lírico identifica-se com Pote Cru porque
Resolução comentada
O poema parodia o Salmo 23 (“O Senhor é meu pastor”) substituindo Deus por Pote Cru, figura que vaga pelo “azedal” entre trapos, restos e bichos miúdos. Ao elegê-lo como guia, o eu lírico acompanha-o na opção pela insignificância das coisas — é a poética de Manoel de Barros, que encontra valor no resto, no ínfimo, no desprezado.
A leitura de busca de salvação divina toma a referência bíblica ao pé da letra: não se trata disso, mas de paródia — o “pastor” aqui conduz ao lixo e às ruínas, invertendo o sentido religioso do salmo.