Questão 113 do ENEM 2011 — Literatura
Estrada
Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo mundo é igual. Todo mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única.
Até os cães.
Estes cães da roça parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,
Que a vida passa! que a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.
BANDEIRA, M. O ritmo dissoluto. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967.
A lírica de Manuel Bandeira é pautada na apreensão de significados profundos a partir de elementos do cotidiano. No poema Estrada, o lirismo presente no contraste entre campo e cidade aponta para
Resolução comentada
Na estrada rural, tudo "faz meditar", e o murmúrio da água sugere, "pela voz dos símbolos", que "a vida passa! e que a mocidade vai acabar". O contraste com a cidade abre espaço para a percepção do caráter efêmero da vida, despertada pela observação da aparente calmaria do campo.
Apontar uma meditação sobre a própria juventude escorrega num detalhe: o eu lírico não medita sobre a própria juventude no espaço bucólico; ele constata, a partir dos símbolos do cotidiano rural, a passagem do tempo e a finitude — reflexão universal, não nostalgia pessoal.