Questão 129 do ENEM 2010 — Literatura

Negrinha

Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.
Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.
Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e  camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar),  ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em  suma – “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.
Ótima, a dona Inácia.
Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva.
[…]
A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos – e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e zera ao regime novo – essa indecência de negro igual.

LOBATO, M. Negrinha. In: MORICONE, I. Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000 (fragmento).

A narrativa focaliza um momento histórico-social de valores contraditórios. Essa contradição infere-se, no contexto, pela

A
Falta de aproximação entre a menina e a senhora, preocupada com as amigas.
B
Receptividade da senhora para com os padres, mas deselegante para com as beatas.
C
Ironia do padre a respeito da senhora, que era perversa com as crianças.
✓
Resistência da senhora em aceitar a liberdade dos negros, evidenciada no final do texto.
E
Rejeição aos criados por parte da senhora, que preferia tratá-los com castigos.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

A contradição de valores está na figura de dona Inácia: apresentada como “excelente senhora”, virtuosa e religiosa, ela é cruel com crianças e, sobretudo, resiste à liberdade dos negros, como mostra o final do texto, que chama a igualdade trazida pelo “regime novo” de “indecência de negro igual”.

A leitura de que haveria ironia do padre a respeito da senhora não se confirma: o padre elogia a senhora sinceramente; a ironia é do narrador, que expõe o contraste entre a fama de virtude e a ferocidade da personagem.

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