Questão 126 do ENEM 2010 — Sociologia

A carreira do crime

Estudo feito por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz sobre adolescentes recrutados pelo tráfico de drogas nas favelas cariocas expõe as bases sociais dessas quadrilhas, contribuindo para explicar as dificuldades que o Estado enfrenta no combate ao crime organizado.

O tráfico oferece ao jovem de escolaridade precária (nenhum dos entrevistados havia completado o ensino fundamental) um plano de carreira bem estruturado, com salários que variam de R$ 400,00 a R$ 12.000 mensais. Para uma base de comparação, convém notar que, segundo dados do IBGE de 2001, 59% da população brasileira com mais de dez anos que declara ter uma atividade remunerada ganha no máximo o ‘piso salarial’ oferecido pelo crime. Dos traficantes ouvidos pela pesquisa, 25% recebiam mais de R$ 2.000 mensais; já na população brasileira essa taxa não ultrapassa 6%.

Tais rendimentos mostram que as políticas sociais compensatórias, como o Bolsa-Escola (que paga R$ 15 mensais por aluno matriculado), são por si só incapazes de impedir que o narcotráfico continue aliciando crianças provenientes de estratos de baixa renda: tais políticas aliviam um pouco o orçamento familiar e incentivam os pais a manterem os filhos estudando, o que de modo algum impossibilita a opção pela deliquência. No mesmo sentido, os programas voltados aos jovens vulneráveis ao crime organizado (circo-escola, oficinas de cultura, escolinhas de futebol) são importantes, mas não resolvem o problema.

A única maneira de reduzir a atração exercida pelo tráfico é a repressão, que aumenta os riscos para os que escolhem esse caminho. Os rendimentos pagos aos adolescentes provam isso: eles são elevados precisamente porque a possibilidade de ser preso não é desprezível. É preciso que o Executivo federal e os estaduais desmontem as organizações paralelas erguidas pelas quadrilhas, para que a certeza de punição elimine o fascínio dos salários do crime.

Editorial. Folha de São Paulo. 15 jan. 2003.

No Editorial, o autor defende a tese de que “as políticas sociais que procuram evitar a entrada dos jovens compensatória que aquela oferecida pelos programas do governo”. Para comprovar sua tese, o autor apresenta

A
Instituições que divulgam o crescimento de jovens no crime organizado.
B
Sugestões que ajudam a reduzir a atração exercida pelo crime organizado.
C
Políticas sociais que impedem o aliciamento de crianças no crime organizado.
D
Pesquisadores que se preocupam com os jovens envolvidos no crime organizado.
✓
Números que comparam os valores pagos entre os programas de governo e o crime organizado.
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para sustentar a tese, o autor recorre a números que comparam os valores pagos pelo crime e pelos programas de governo: salários do tráfico de R$ 400 a R$ 12.000 mensais, contra os R$ 15 do Bolsa-Escola, além dos dados do IBGE sobre a renda da população.

Apontar as sugestões que ajudam a reduzir a atração exercida pelo crime organizado como a prova confunde tese com argumento: essas sugestões são a conclusão defendida pelo editorial, e não o recurso usado para comprovar o argumento — esse papel cabe aos dados numéricos.

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