Questão 117 do ENEM 2010 — Literatura
Soneto
Já da morte o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!
Do leito embalde no macio encosto
Tento o sono reter!… já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece…
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!
O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.
Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!
AZEVEDO, A. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000.
O núcleo temático do soneto citado é típico da segunda geração romântica, porém configura um lirismo que o projeta para além desse momento específico. O fundamento desse lirismo é
Resolução comentada
O eu lírico, abatido pela partida da amada, entrega-se à prostração: o corpo esmorece, o coração fenece, e ele apenas implora piedade e esperança. O fundamento desse lirismo é a melancolia que frustra qualquer reação diante da perda — sentimento que ultrapassa o Ultrarromantismo e torna o poema universal.
A opção que fala em desejo de morrer como alívio erra o foco: o eu lírico não deseja a morte como alívio; ao contrário, pede que lhe devolvam a esperança de viver ("Dá-me a esperança com que o ser mantive!").