Questão 98 do ENEM 2009 — Literatura
Para o Mano Caetano
O que fazer do ouro de tolo
Quando um doce bardo brada a toda brida,
Em velas pandas, suas esquisitas rimas?
Geografia de verdades, Guanabaras postiças
Saudades banguelas, tropicais preguiças?
A boca cheia de dentes
De um implacável sorriso
Morre a cada instante
Que devora a voz do morto, e com isso,
Ressuscita vampira, sem o menor aviso
[…]
E eu soy lobo-bolo? lobo-bolo
Tipo pra rimar com ouro de tolo?
Oh, Narciso Peixe Ornamental!
Tease me, tease me outra vez¹
Ou em banto baiano
Ou em português de Portugal
Se quiser, até mesmo em americano
De Natal
[…]
¹Tease me (caçoe de mim, importune-me).
LOBÃO. Disponível em: http://vagalume.uol.com.br.
Acesso em: 14 ago. 2009 (adaptado).
Na letra da canção apresentada, o compositor Lobão explora vários recursos da língua portuguesa, a fim de conseguir efeitos estéticos ou de sentido. Nessa letra, o autor explora o extrato sonoro do idioma e o uso de termos coloquiais na seguinte passagem:
Resolução comentada
A questão pede a passagem que une duas coisas ao mesmo tempo: exploração do extrato sonoro (o jogo de sons e rimas) e o uso de termos coloquiais. Isso ocorre em 'lobo-bolo // Tipo pra rimar com ouro de tolo': há o brinquedo sonoro da rima interna (lobo-bolo/tolo) e marcas da fala informal, como 'Tipo' e 'pra'.
A passagem 'doce bardo brada a toda brida' é o distrator clássico: explora fortemente a sonoridade (aliteração em /b/), mas seu vocabulário é rebuscado e literário — não há nada de coloquial ali.